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Educação, racismo e consciência negra

Educação, racismo e consciência negra

21/11/2012 17:29
Classificada em: Entrevista

No Brasil, desde o ano de 1978, as entidades ligadas ao Movimento Negro celebram o Dia da Consciência Negra. Porém a data, que homenageia a morte de Zumbi dos Palmares, um dos mais celebrados líderes quilombolas da história brasileira, tornou-se parte das comemorações oficias nacionais apenas no ano de 2011, com a sanção da lei 12.519 pela presidente Dilma Rousseff.

Além de celebrar a luta dos escravos, a data simboliza um período específico de exaltação da cultura afro-brasileira e de mobilização pela melhoria na qualidade de vida da população negra. Em entrevista, a professora Maria Rita Py Dutra, mestre em identidades sociais e etnicidade formada pelo Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria e militante do Movimento Negro, fala sobre a conjuntura atual do Movimento em Santa Maria e sobre o papel das instituições de ensino na busca de uma sociedade mais democrática e justa para a comunidade negra.

Fernanda Arispe – Qual é sua relação com o Movimento Negro de Santa Maria?

Maria Rita Py – Como professora, minha atuação no Movimento Negro ficou circunscrita ao campo da educação. Sou militante do Movimento desde quando ainda residia na cidade de Alvorada, em meados de 1987. Lembro-me de que, em 1988, a então 28ª Delegacia de Educação promoveu um grande seminário na cidade de Gravataí, marcando o Centenário da Abolição da Escravidão. Foi neste seminário que me deparei com a grave situação do alunado negro brasileiro. No início dos anos 1990, trabalhei no projeto O Negro e a Educação, atingindo toda a região de abrangência da 8ª Coordenadoria Regional de Educação.

Quando fui diretora da Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania de Santa Maria, no período em que a assistente social Gecira Di Fiori foi secretária, implantei no município, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e atuei também no programa Família Cidadã, trabalhando majoritariamente com famílias negras. No Museu Treze de Maio, a partir do ano 2002, como diretora do Núcleo de Ação Cultural Educativa, implantei o Projeto Construindo a Igualdade Racial através da Literatura, contatando escolas públicas e privadas de Santa Maria e região. Afastei-me do Museu quando, em 2009, voltei para a Universidade. Hoje, no projeto OCA Brasil, trabalho com Terapia Comunitária em um grupo de mulheres negras catadoras, vinculadas ao Projeto Catando Cidadania, no bairro Cerrito. Faço parte do Movimento Negro de Santa Maria e minha contribuição selou-se neste ano, quando concluí meu mestrado pesquisando a relação entre o capital cultural e a consciência racial em professoras negras.

F.A. – Como essa organização está articulada atualmente na cidade?

M.R.P. – Em Santa Maria, o grande polo propulsor do Movimento Negro foram os agentes da Pastoral do Negro. Foi a articulação de agentes como a Irmã Terezinha da Silva, da Ordem das Pequenas Operárias de Nossa Senhora Medianeira, Tereza Valmerate, dona Maria de Lurdes dos Santos da Silva e seu companheiro Luiz Antonio Matias, Vera Valmerate, Maria do Carmo e Sirlei Barbosa que possibilitou a semeadura cujos frutos estão sendo colhidos no presente.

O Movimento Negro santa-mariense, hoje, espraia-se por diferentes regiões da cidade e se organiza por eixos de interesses. Assim temos centenas de Casas de Matriz Africana, que praticam a religiosidade e diversos grupos de capoeira. Temos também grupos de mulheres negras, como a Sociedade Afro Resistência e Força, a Associação Grupo Afro Raízes Negras e o Grupo Vocal de Mulheres Negras. As escolas de samba também figuram nesse quadro. O Museu Treze de Maio tem sido um espaço de aglutinação do Movimento Negro, e foi responsável pelas atividades desenvolvidas na 24ª Semana da Consciência Negra de Santa Maria, envolvendo a Associação de Estudantes Negros de Santa Maria, o Coletivo de Estudantes Negros da UFSM – o AFRONTA, sindicatos, casas de matriz africana e grupos de cultura afro.

F.A. – Quais são as principais dificuldades encontradas na militância?

M.R.P – A maior dificuldade que temos é o excesso de trabalho e o pequeno número de pessoas de que dispomos. Acumulamos muitas frentes de ação, perdendo um pouco a qualidade. É bom ressaltar que a comunidade negra está na periferia da cidade, ficando, às vezes, muito distante e as coisas estão acontecendo justamente lá, na periferia.

Em nossa cidade temos um movimento muito bonito envolvendo dança de rua, hip-hop, cinema e a comunidade periférica. Em Santa Maria, precisamos de um fórum permanente que contemple todas as questões que afetam a comunidade negra. É preciso voltar a nos reunir, como fazíamos antigamente, e fazermos uma leitura de conjuntura, atentando para os índices de evasão e repetência em todos os níveis de ensino e desemprego. Isso vai nos possibilitar responder à questão sobre onde estão e o que fazem os negros de Santa Maria. A partir daí, devemos traçar estratégias de ação.

Outra dificuldade que encontramos hoje é a partidarização do movimento. Algumas importantes lideranças negras foram para a institucionalidade, deixando o Movimento acéfalo. Quando esses antigos líderes falam, muitas vezes, buscam defender os programas de seus partidos políticos. Em minha opinião, isso é um grande problema. Há que se separar as coisas. Movimento Negro é movimento negro.

F.A. – Em sua opinião, em que estágio a sociedade brasileira se encontra no caminho de uma igualdade racial efetiva e universal?

M.R.P. – É um processo. E é um processo que vem sendo construído desde os anos 1930, com a fundação da Frente Negra Brasileira, depois com a criação do Teatro Experimental do Negro e nos anos 1970, com o Movimento Negro Unificado. No governo FHC, houve avanços. Além disso, a participação do Brasil em todas as conferências mundiais contra o racismo e a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância correlata contribuíram para que avançássemos rumo ao caminho da igualdade racial.

 A ordem para o governo era diminuir o abismo social entre brancos e negros no país e isso já está acontecendo. A adoção de cotas para acesso nas universidades públicas, bem como a promulgação de duas leis que atingem a educação – a obrigação de os currículos escolares contemplem a história e a cultura indígena e africana – são dois pontos importantes que contribuirão para a igualdade racial na sociedade brasileira.

O racismo é um comportamento antigo e universal. Não podemos obrigar que pessoas de diferentes etnias passem a se gostar, mas podemos exigir respeito. Penso que a sociedade brasileira encontra-se ainda no estágio de sensibilização para o problema. A ideologia da democracia racial foi muito forte e permeia nossas relações sociais. Precisamos vencer esta etapa de sensibilização/conscientização e partirmos concretamente para a superação dos índices de miserabilidade e pobreza da população negra, a garantia da educação e de políticas públicas de emprego/renda, moradia, saneamento básico. Precisamos formar uma classe média negra.

F.A. – Qual a senhora acredita ser o papel da escola e da universidade no combate ao racismo?

M.R.P. – O papel da escola e da universidade é o mesmo: garantir um ensino democrático a todos os alunos. Antes de ser um lugar reservado à construção de conhecimento, a escola é um espaço de interação social no qual os agentes que lá se encontram aprendem e vivenciam regras e classificações sociais, desempenham papeis sociais, e a aproximação dos diferentes, oportuniza a convivência e a experimentação da alteridade. São alunos provenientes de diferentes grupos sociais, com capitais diferenciados, convivendo num espaço comum. Cada aluno carrega consigo o conjunto de sua cultura: valores, hábitos, costumes, peculiaridades que na escola, em contato com os demais colegas, pertencentes a outros grupos diferenciados, mantêm suas peculiaridades, fortalecendo-as.

A escola deve ser um espaço dialógico, em que a cultura de todos os alunos deve ser aceita e respeitada. O papel da escola é propor uma educação transformadora, a partir da valorização da vida na comunidade. Romper com o discurso racista e construir um espaço em que as relações sejam baseadas na solidariedade, na justiça e na democracia. A escola deve ser um espaço de libertação, em que a educação bancária ceda lugar a uma proposta política emancipatória.

F.A. – E como esse papel deve ser desempenhado? Por meio de quais ações?

M.R.P. – A partir do momento em que se permitir que o aluno seja sujeito ativo do seu processo de aprendizagem, dando visibilidade à sua cultura, sua história, os feitos heroicos de seus antepassados. Uma escola de qualidade que se proponha a formar cidadãos pensantes.

A universidade precisa rever sua prática, precisamos formar profissionais negros sensíveis às questões da comunidade negra, daí a importância dos cotistas se organizarem durante o curso. Fala-se em postura afrocentrada. Precisamos sair desta visão eurocêntrica, buscando novas formas de atuação, a partir das experiências e vivências desses alunos que estão chegando à universidade.

F.A. – Que transformações se espera do sistema de cotas raciais, que levou tantos anos para ser implementado?

M.R.P. – Vejo com bons olhos, vamos formar uma classe média negra brasileira, consumidores, mas acima de tudo espero que estes profissionais voltem seu olhar para seu povo e contribuam com estudos, pesquisas que venham a ajudar esta parcela da população. Acho fundamental que tenhamos psiquiatras, psicanalistas, psicólogos negros que pensem questões como a depressão, a loucura, a violência, a criminalidade entre nós. Se tivéssemos engenheiros e arquitetos negros envolvidos em projetos habitacionais, certamente não seríamos contemplados com estas casinhas “caixas de fósforo” impróprias para famílias negras.

Repórter:

Fernanda Arispe – Acadêmica de Jornalismo.

Edição:

Lucas Durr Missau.